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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os Três Mal Amados


Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

domingo, 17 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Selo


Este selo eu recebi da Sonia. Visitem o blog dela. Tenho certeza de que você vai gostar.

http://contosoufatossurreais.blogspot.com/

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Definitivo

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...

Carlos Drummond de Andrade



domingo, 10 de abril de 2011

Selo

Este é o selo comemorativo dos 200 seguidores do blog da Lena. Merecido pela qualidade de seu blog. Indico: amadeirado.blogspot.com

sábado, 2 de abril de 2011

A Luz no Fim do Túnel

Me vejo sempre caminhando num túnel. Imagine um túnel escuro e que a única coisa que o ilumina é uma tocha que carrego comigo. Pois é. Vivo seguindo numa direção incerta e que talvez seja a errada. Um dia avistei uma luz bem longe. Me enchi de esperanças. Aquela luz finalmente poderia ser a saída deste túnel tão escuro e cheio de armadilhas. Então me apressei. Eu queria chegar até aquela luz o mais rápido possível. Comecei a correr, tropecei por várias vezes e caí. Caí em buracos em que levei meses para conseguir sair deles. Sempre persistente no meu objetivo, mas os obstáculos eram muitos e cada vez mais difíceis de vence-los. Me machuquei muito. Se fizeram muitas feridas em mim. Talvez eu estivesse arriscando a minha vida por nada. Isso passou pela minha cabeça por várias vezes. O cansaço estava querendo dominar a minha mente. Juro que pensei em desistir de tudo. Ficar no interior de um dos buracos onde caí e aguardar o fim de tudo. Mas me apeguei ao meu objetivo que era um dia sair daquele túnel horrível. Eu não poderia viver ali para sempre. Então mais uma vez determinado continuei enfrentando todas as barreiras, todos os buracos e até animais peçonhentos que encontrei neste caminho tão difícil. Já exausto, muito machucado, me arrastando, olhei para frente e a luz estava muito próxima. Mais uma vez me entusiasmei porque agora estava muito próxima aquela luz. Fui me aproximando finalmente e avistei apenas uma tocha acesa no meio do túnel. Olhei para frente e não avistei mais nada além daquele breu infinito. Confesso que me desesperei. Eu chorava e gritava: “ Por que tanto sacrifício em vão?”. Questionei Deus. Mas lembrei que eu mesmo havia escolhido arriscar a seguir este caminho duvidoso, consciente de que ele poderia ser a minha ruína. Mas eu não tinha escolha. Eu precisava arriscar. Mesmo assim eu estava decidido em destruir aquela tocha que eu havia encontrado, pois eu estava com muita raiva de mim mesmo e da situação. Peguei a tocha e quando fui lança-la contra a parede, percebi que a tocha que eu carregava comigo durante tanto tempo, estava se apagando. Parei para pensar. Se eu destruísse aquela tocha, eu não enxergaria mais nada e seria o fim. Resolvi então continuar seguindo em frente, mas agora carregando a nova tocha que eu havia encontrado e abandonando aquela que já estava se apagando. Percebi então que realmente era necessário percorrer aquele caminho tão difícil. Se eu não o percorresse, seria o fim. Hoje continuo caminhando por este túnel que não parece ter fim, carregando comigo a nova tocha. Ainda alimento a esperança de um dia encontrar a luz do fim do túnel.

João C.M.Reina

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